Uma forma de poesia

Fevereiro 25, 2018

Quando se fala de crianças deficientes, assume-se um ar triste, como quando se fala de uma catástrofe. Ao menos uma vez, eu gostaria de ver todos a falarem destas crianças com um sorriso, pois a minha experiência diz-me que elas têm mais sorrisos para dar, do que qualquer um de nós.

Graças à Maria, tive algumas vantagens em relação aos pais que só têm crianças normais. Não me preocupei com seus estudos nem com orientação profissional. Não tivemos de hesitar entre uma carreira científica ou literária. Nem de nos inquietar quanto ao que ela faria mais tarde – soubemos rapidamente que nasceu para ser princesa.

Se a Maria não fosse como é talvez eu tivesse tido menos medo do futuro. Mas, se ela tivesse sido como os outros, seria mais uma no meio de todos os outros.

A Maria é uma criança que, por  não ser como as outras, é um mistério. Dizem que as crianças assim são menos inteligentes do que as outras. Mas o que é que elas significam? Que há diferentes formas de inteligência. Graças à Maria, há coisas que valorizo, como o sonho, a inutilidade, a poesia. Porque de certa maneira ela é uma poeta. Vive no sonho. Creio que o surrealismo é próximo do que ela é. Há poemas surrealistas que poderiam ter frases ditas por ela. O que aprendi com a Maria é que as crianças deficientes são uma forma de poesia.

A Mãe da Maria (Ana Rebelo)

 

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