Perguntam-me várias vezes

Setembro 13, 2018
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“Perguntam-me várias vezes porque é que é tão difícil imaginar que se pode ter um filho deficiente. Não tenho facilidade nenhuma em responder; era preciso que me tivessem interpelado antes de eu própria ter passado por isso. Neste momento, para mim, é tão só uma rotina dentro de uma família como outra qualquer, que tem perfeita noção de que cada um de nós cresce e se desenvolve ao seu ritmo. Um dia a dia igual ao de tantas famílias, com a particularidade de termos uma filha pequena sempre, que nunca cresce. Mas posso imaginar que o que assuste mais as pessoas seja o medo do desconhecido.

Está quase instituído que todos crescemos da mesma forma, a chamada normalidade, e que, como estamos habituados a isso, saberemos sempre enfrentar o que vier, seja o problema qual for. Penso que o maior medo das pessoas em terem um filho deficiente é o facto de este implicar uma saída da normalidade, daquilo que supostamente se controla, daquilo que a sociedade encara como normal. Temor esse que caminha sempre acompanhado pela dúvida eterna de se ter a força necessária para enfrentar e viver todos os desafios que daí advirão.

Acima de tudo, julgo que todas as pessoas se enganam, de forma inconsciente, ao pensar que podem sempre imaginar um futuro independente e capaz para cada um dos seus filhos. De facto, da minha experiência, quando temos um filho deficiente isso não acontece: a Maria nunca será autónoma e dificilmente terá um futuro criado e imaginado por ela. O Jorge e eu teremos de pensar nisso e imaginar como é que ela vai ficar. Sobretudo, porque nenhum de nós sabe o dia de amanhã e o que é que o futuro nos reserva. A nós e a eles.”

Excerto do livro “A mãe da Maria” | Autora Ana Rebelo

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