Não ter um filho com deficiência, e agradecer por isso, não faz as crianças deficientes desaparecerem

Janeiro 6, 2019

“Quantas vezes o fato de ver uma criança com alguma deficiência física o fez agradecer a Deus, com alívio, o fato de não ser a sua criança? Se essa resposta não dependesse de aprovação moral, tenho certeza de que teríamos quase 100% de respostas positivas.

Eu só quero lembrar que o fato de não ser seu filho não faz a síndrome ou deficiência deixar de existir. O fato de continuar o seu caminho, entrar no seu carro e ir embora também não faz aquela criança desaparecer. Nem o pai e a mãe dela, que já devem ter passado por muitas situações para mantê-la da melhor forma possível.

Chegar em casa e abraçar o seu filho “perfeito” pode ser uma sensação inexplicável, mas continua não justificando a sensação de alívio ao ver uma criança com deficiência. Ok, porque não é seu filho, mas você pode, SIM, fazer a diferença. Digo sempre: o tempo e o esforço que dedica para falar ou sentir algo de gosto duvidoso são os mesmos que pode dispensar para dizer algo que mude o dia daquela pessoa e que faça sentir uma coisa totalmente positiva.

Muita atenção, não há julgamento aqui! Ninguém nasce a saber como lidar com situações que fogem do cotidiano. Eu levanto apenas a questão: será que, ao deparar-se com crianças especiais, está a fazer a diferença para o bem na vida delas?

Eu sou uma pessoa pública, tenho sorte por ser procurado por milhares de pais que querem levar seus filhos especiais para eu conhecer. Às vezes, querem apenas que eu os pegue no colo. Nem foto tiram. Se eu não fosse um orgulhoso representante da classe autista, não conseguiria fugir, nem se quisesse. Me sinto muito privilegiado por isso, e sei que planto algo bastante positivo naqueles pais e que mudo o dia ou ao menos aquele momento na vida da criança. Isso é uma sensação difícil de descrever. Fazer o bem para uma criança que precisa e que… não é sua. O bem aqui é, por vezes, apenas atenção! Segurar a mão, dar carinho, um abraço, ouvir, por mais que ela não fale, e entendê-la, por mais que seja impossível. Às vezes, não demora mais do que dois minutos do seu dia.

Estender a mão para essas crianças e famílias e trazer essa realidade para o seu dia a dia mudará o que sente quando as encontrar. Não mais sentirá alívio por seu filho não fazer parte daquele universo. Vai, sim, sentir alívio por ter apresentado a ele esse mundo, por fazê-lo saber que essa realidade existe. E, principalmente, você terá demonstrado a ele como lidar e ajudar quando chegar a vez dele, como adulto.”

Autor Marcos Mion | Fonte RevistaCrescer.Globo.com

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