Flor

Janeiro 19, 2019

Tinha cara de flor, olhos azuis cor do mar e um cabelo branco suave como a brisa de vento. Encontrei-a por acaso numa tarde quente de outubro.

Estava tudo perfeito, o sol brilhava como se estivesse a ser visto por milhões e milhões de pessoas, as folhas voavam lentamente até atingir o chão e ouvia-se, em plano de fundo, os pássaros na sua melodia perfeita.

Sentei-me e pedi um sumo de laranja, na pastelaria mais perto de minha casa. Enquanto esperava encontrei uma flor. Uma flor brilhante. Elegantemente vestida, com uma face marcada pela vida o que a tornava ainda mais bela. Ela esperava alguém. Alguém que se calhar nunca chegou. Mas ela guardou-lhe um lugar mesmo à sua frente, guardou-lhe as palavras mais bonitas, o segredo mais escondido, o vestido mais bonito, ela guardou-lhe o Mundo. O mundo contado em segundos, naqueles olhos que transbordavam esperança. De esperança que, da meia dúzia de pessoas que entravam na pastelaria àquela hora, fosse ele. Não me pareceu que ele já tivesse chegado. Mas ela também nunca se importou.

Pegou na sua carteira, feita a mão e tirou o telemóvel, porque ela não é daquelas que ficou parada no tempo. Acho que lhe ligou, mas ninguém atendeu. Também não se importou. Entretanto passaram-se minutos e eu já a meio do meu sumo de laranja, que me soube tão bem naquele dia, sorri-lhe e disse olá por gestos, que só nos percebíamos. Ela replicou o sorriso. Pareceu-me feliz. Não falámos mas já sabemos tanto uma da outra.

Levantei-me, tinha de ir. Quis dizer-lhe adeus, mas não sabia qual  o momento. E foi quando ela levantou a mão, um pouco a medo, e me disse adeus. Eu repliquei o gesto. Fiquei feliz!

Fechei a porta de vidro sem olhar para trás, tinha de ir…Ela continuou à espera. À espera de alguém, que se sentasse no lugar à sua frente e que ouvisse todas as suas histórias, que a elogiasse pelo bonito vestido, que descobrisse o mundo que ela guarda há tanto tempo… 

Flor – se é que este é mesmo o teu nome – eu vejo-te todos os dias da janela do meu carro, enquanto o meu pai compra pão na pastelaria. Tu ainda esperas! Eu sei… sentada na mesa de sempre e com o olhar de sempre… Tu esperas para sempre!

A irmã da Maria (Matilde Rebelo Pires)

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