Este sorriso da “Maria” dava um filme – por Mário Augusto

Dezembro 1, 2017
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“Leiam porque é com todos, mesmo com aqueles que acham que nada têm nada a ver com isto.

A indiferença deveria pagar imposto e deduzir no IRS sempre que mostramos o quanto nos preocupamos genuinamente com os outros que sofrem algum tipo de dor, estigma ou injustiça nessas atitudes de uma sociedade regulada e padronizada. Vive-se no mundo da hipocrisia, gostamos de padronizar e não somos capazes de olhar para a diferença com uma atitude solidária e verdadeiramente sã de valores ou consciência quantos passam ao lado…

Passamos num disfarce por egoísmo. Olhamos de soslaio e gritamos para dentro: “coitadinhos” como quem pede expiação com medo que se pegue.

Temos boa desculpa: os tempos são duros e de incerteza! Pois são… mesmo muito duros. Mas reparem: são muito mais duros ainda para quem, ainda antes de nascer, foi marcado por um acidente genético, ou sabe-se lá mais o quê que possa ter acontecido e que ditou uma condicionante de vida, para a vida.

Pois, pois… mas não é só aos outros que acontece, pode bater à nossa porta. Aí é que se grita: “Aqui d’el rei! Quem acode?”.

Aí percebemos que não há quem nos acuda. E sabem porquê? Porque os outros (que também éramos nós) também passam ao lado por egoísmo. Por falta de tempo. Por indiferença. Por hipocrisia.

Quando assim é, há a tendência para aquele sofrimento à flor da pele, aquela comichão que passa com água e sabão social. Tratamos brevemente, para a seguir enxugar a mão que afagou a dor.

Eu sou mãe desta jovem sorridente, uma jovem com uma deficiência única no mundo, a grande Maria. Não imaginam o que vemos na falta de sensibilidade (até de muitos técnicos de saúde) para lidar com a diferença. Eu sei do que falo: nada custa mais do que a insensibilidade e a indiferença. Nada mais dói do que ver uma criança chorar em esforço por tentar fazer um movimento tão simples como mover um pé e este não respeitar a ordem do cérebro e o passo não se dar, não seguir em frente.

Lembra-se de ver o seu pequenote a correr pela primeira vez atrás de uma bola? Aquele primeiro trambolhão de passo atabalhoado e de descoberta? O primeiro “gu-gu, dá-dá”?… Pois! Pensem nisso, porque há pais que nunca experimentaram essa sensação, estão em dor constante lá no fundo. Contudo, eles descobrem outras felicidades que os ditos filhos normais não dão pela – dita – normalidade padronizada.

Pode explicar-se muito sobre a dor, talvez até encontrar a fórmula química e desenhar os gráficos dessa dor no cérebro, mas só quem experimenta é que sente. Fazer a felicidade a alguém frágil e desprotegido é como trabalhar uma peça de artesanato única, uma filigrana de pequeninos fios que, juntos e enleados, mostram uma beleza que – de per si – eles não guardavam.

É isso que é ajudar alguém (…) Mais do que lidar com o problema, a dificuldade está em lidar com a falta de sensibilidade social para ajudar e compreender os que sofrem com este estigma.

Há 18 anos que andamos em família a lutar contra moinhos de vento, tentando ajudar a minha filha a sorrir. Que bom…conseguimos que ele não só sorria, mas que ria á gargalhada a olhar para vida…

Alguém pergunta, na escola, na clínica, na segurança social, nas juntas médicas, nos organismos (quase todos eles) os que são obrigados a fazê-la sorrir e a tratam como um número de estatística, o quanto custa esse sorriso e gargalhadas de vida?

O que queria era conseguir (…) que ela aprendesse a lutar contra a hipocrisia e a indiferença de muitos que não sabem o que é sofrer por ser diferente. Às vezes, basta a atitude de um simples gesto. Se o mundo é redondo e gira, a vida dá muitas voltas. Quem sofre, está de alguma maneira mais preparado para essas voltas que o mundo dá. Por vezes não vale disfarçar a hipocrisia, fugir ou ignorar, será esse mundo que é de todos (inteligentes ou diminuídos, atletas ou incapacitados, invisuais ou caixas de óculos) será o mundo a encarregar-se de dar a sua volta, passa de novo por nós. Por vezes surpreender na volta mesmo a quem não está a acenar. (…)

Ainda bem que sorris Maria, assim sempre desarmas muitos dos que só sorriem em tom amarelecido, ou apenas esboçam o sorriso porque nem sequer sabem viver para passar a traço fino esse desenho de boca que lhes fica estático…

Desculpem o desabafo. Podem partilhar porque sempre deseinquietam uns quantos que nunca se inquetam com a diferença.”

Texto de Mário Augusto | Texto adaptado à realidade cá de casa

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1 Comentário

  • Responder Este sorriso da “Maria” dava um filme – por Mário Augusto - Baby Blogs Portugal Dezembro 1, 2017 em 05:22

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