Era tão pequenina, meu Deus

Dezembro 16, 2017

” A Maria nasceu a 17 de dezembro de 1999, pouco depois das seis da manhã. Passei aquela primeira madrugada desnorteada: por um lado, dominada por uma vontade gigantesca de ver a minha filha, de a conhecer, e por outro lado, com um medo imenso de me aproximar dela. Não tive notícias e ninguém me veio dizer nada porque não se sabia o que ia acontecer.

Passado umas horas, uma enfermeira abeirou-se da minha cama silenciosamente e entregou-me um papel. Cruzou os olhos nos meus, afetuosa, fez-me uma festa e disse-me: “é sua”. Deixou-me nas mãos uma fotografia da Maria, um pedacinho de gente no meio de um amontoado de fios que a mantinham agarrada à vida. Desfiz-me ali, abraçada à imagem da minha filha e nesse preciso momento soube que tinha de a ir ver (…).

Era tão pequenina, meu Deus. As lágrimas rolavam de tal forma que não a conseguia ver, não era capaz de controlar onde caíam, não conseguia nada. Olhei para as suas mãos e, instintivamente, pus a minha dentro da incubadora. Assim que lhe toquei, apertou-me o dedo. Ela reagiu e isso surpreendeu-me. Foi um gesto tão delicado e carinhoso, tão confiante e expressivo, que senti um conforto extraordinário.

É difícil explicar como mas senti que existia força do lado dela. Talvez este sentimento fosse o amor que se sente por um filho na sua intensidade máxima, extremado pela perspetiva de que podia terminar a qualquer segundo. As dores das costuras eram desagradáveis e as pernas começaram a trair-me de tal forma que me vi obrigada a sentar. Nessa altura, a enfermeira foi desligando todos os fios, colocou a Maria no meu colo, e voltou a ligar tudo de novo. Tínhamos conseguido, tinha demorado, mas finalmente a Maria tinha chegado à minha vida.

Guardo esses primeiros momentos como instantes muito felizes, um bocadinho só nosso em que não consegui dizer ou pensar em nada. O tempo parou. Em alturas como estas, há coisas que são ditas e outras que, por serem sonhadas, ficam guardadas no coração. Sei que estive com ela por inteiro e isso foi o mais importante.

Tive-a nos meus braços durante muito pouco tempo porque, entretanto, as máquinas começaram todas a apitar. Não me importei, viesse o que viesse, aquele tinha sido o nosso momento. Já lhe tinha tocado, já a tinha cheirado, já a tinha conhecido. Já sabia quem era a minha filha. E mesmo correndo o risco de tudo durar somente umas horas, eu tinha escolhido estar ali e criar aquele vínculo tão arriscado.

Confio que os médicos, quando me aconselharam a não criar uma ligação com a Maria, o fizeram acreditando que seria o melhor para mim. Dizem que «o que os olhos não vêem, o coração não sente» e os profissionais de saúde já devem ter vivido situações tão difíceis, que não consigo sequer imaginar, que julgaram que esta seria a forma mais fácil de eu ultrapassar. Quem sabe, poderia até não ficar com recordações tão dolorosas. Percebi que isso era impossível porque os laços que nos uniam já estavam criados.

Costumo dizer que vivi situações muito difíceis mas que, no meio de todos os acasos, tive sempre muita sorte. Tudo acabou sempre por correr bem e a Maria foi dando a volta a todas as expetativas.”

E hoje a Maria faz 18 anos, 157 740 horas a juntar às 48 horas de prognóstico inicial. Parabéns minha querida GUERREIRA!

A mãe da Maria (Ana Rebelo) | Excerto do livro “A mãe da Maria”

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2 Comentários

  • Responder Era tão pequenina, meu Deus - Baby Blogs Portugal Dezembro 17, 2017 em 03:18

    […] Passado umas horas, uma enfermeira abeirou-se da minha cama silenciosamente e entregou-me um papel. Cruzou os olhos nos meus, afetuosa, fez-me uma festa e disse-me: “é sua”. Deixou-me nas mãos uma fotografia da Maria, um … Ver artigo completo no Blog […]

  • Responder Dias Maria Paula Dezembro 18, 2017 em 19:23

    Foi na realidade um dia com um turbilhão de sentimentos que só uma Mãe os sabe gerir.
    Parabéns às duas e um beijinho especial à doce e guerreira Maria , desejando-lhe muitas Felicidades e que a Vida lhe traga coisas muito boas.
    Também estou Feliz pois à 7 anos nasceu a minha netinha também ela Maria

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