“Dar à luz, para a perder…”

Maio 4, 2015

Foi duro sim, foi arrebatador, assustador, muitas horas de dor, não só dor física, mas dor de desespero, de conflito emocional. Dor de não querer perder aquilo que é um bocadinho de nós. Dor de revolta da impotência de nada conseguir fazer para salvar a minha bebé…tristeza, mágoa por ser tão inútil, a estranha sensação de dar à luz para a perder!

Foram momentos indescritíveis e de uma violência…mas a força inexplicavelmente vinha de dentro e daqueles, “os meus”, que estavam ali de “pedra e cal” que me seguravam na mão, que me passavam a mão na testa e comigo choravam e riam para ganharmos forças e enfrentarmos tudo o que por aí vinha…ou seja o incerto! E o incerto chegou…

Entre muitas horas de trabalho de parto, epidural, espera, força, fórceps…e já no bloco operatório, de repente o volume da música aumenta, relembro ainda hoje o tema do Elton John que ecoava por aquela sala sem cor. Duas médicas à minha frente agarradas aos fórceps, em ar de esforço puxam com todas as suas forças e de repente…a enfermeira ergueu um lençol grande e não me a deixaram ver, não me deixaram ouvir, não me deixaram sentir… Ela iria viver no máximo 48 horas, era melhor não criar laços…diziam os entendidos!!! Após meia hora de corte e costura, finalmente saí do bloco. Queria ter a capacidade de escrever todos os sentimentos com que me debati naquelas infindáveis horas de trabalho de parto, mas são inexplicáveis, senti-me desesperada, sem força, louca, aterrorizada, triste com raiva, medo…não sei, só queria que tudo parasse, mas ao mesmo tempo que acabasse o quanto antes.

À saída lá estava a minha cunhada Mónica (médica), lavada em lágrimas mas sentada à minha espera… Meu Deus parecia que tínhamos parido as duas ao mesmo tempo, notava-se no seu olhar a exaustão… e eu só queria saber mais, mesmo sem forças perguntava-lhe repetidamente “…Está viva? Como é que ela é? Numa calma contida, apenas me respondeu ”… está tudo calmo, já passou!”. O meu marido, veio ter comigo logo de seguida, sentia-se a sua aflição e perguntei-lhe o mesmo, só queria saber mais e mais…fez-me uma festa e respondeu a soluçar “…está viva”.

Brutal a sensação de frustração e a angustia de ir para a sala das parturientes que abortaram… e ter uma bebé entre a vida e a morte nos cuidados intensivos. Mas afinal deveria ser uma das mães mais felizes daquela sala, não?…Era a única que ainda poderia ter alguma esperança…a minha filha estava viva! E agora? O que fazer?

O incerto não é nada mais que a única certeza que temos para além da morte…mas não queremos “crer” que seja assim. No meio deste sofrimento emocional tão violento e lutando contra todas as dores físicas, que também eram muitas (pois não foi um parto fácil), lá fiquei no meio daquele quarto frio e escuro a tentar alcançar o “descanso”.

Algumas horas depois entrou pelo quarto uma enfermeira, veio junto de mim e entregou-me num gesto carinhoso um papel, olhou-me nos olhos, fez-me uma festa e disse é Sua. Era uma foto…na imagem um “nico de gente” no meio de um amontoado de fios que a mantinham ligada e a agarrada à vida. No pequenino rosto eram visíveis as mazelas da violenta luta que tinha travado com os fórceps que insistiam em puxá-la para este lado, para o lado da “vida”. Não aguentei…chorei convulsivamente agarrada à foto durante 5 horas seguidas…queria vê-la e senti-la, mas não a queria ver para logo a perder. Não deveria ir até lá?…restavam apenas algumas horas, sei que queria…mas também não queria.

O meu estado físico não ajudava…os pontos eram tantos, que andar era uma tarefa que me repuxava as entranhas. Passar da posição deitada à de pé era um desafio contra o desmaio que parecia iminente. Mas como há coisas que não se explicam…de um minuto para o outro as forças apareceram, ainda hoje não sei de onde chegaram. Sozinha pus-me de pé, levei cinco minutos a fazer cinco metros e chegar à primeira parede do corredor da MAC. Encostada, fui deslizando e conseguindo fazer dois passos por minuto e em meia hora cheguei aos vidros dos cuidados intensivos.

A dor física era muita…mas o turbilhão de sentimentos naquela viagem de cem metros era estranho. Espreitei pelo vidro as inúmeras incubadoras. E agora onde está e quem é a minha filha? Quem é a Maria? Estranha pergunta para uma mãe fazer, como é possível nem a reconhecer? Eu sou a mãe! Estava eu distraída com os meus pensamentos, mas havia quem não estivesse, de repente e sem dar por isso uma enfermeira, já ao meu lado aborda-me e pergunta a senhora é “a mãe da Maria”, não é? Socorro chamaram-me MÃE! Pela primeira vez senti a palavra…de imediato disse “SIM”. Deu-me o braço, ajudou-me a esterilizar as mãos e levou-me lenta e serenamente até à incubadora. As minhas pernas não queriam andar, os pés pesavam toneladas, devia ser o cérebro a dar uma ordem e o coração outra… Era tão pequenina meu Deus, no meio de um emaranhado de fios e tubos.

As lágrimas caiam-me de tal forma que não a conseguia ver, não conseguia controlar onde caiam, não conseguia nada. Olhei para as suas mãozinhas e instintivamente pus a minha mão dentro da incubadora, dei-lhe o meu dedo e aí…aí sim, senti que ela estava ali comigo! Agarrou e apertou o meu dedo, foi tão delicado e carinhoso, como confiante e expressivo, senti um conforto extraordinário!

A enfermeira sentou-me num cadeirão e foi desligando fio a fio e voltando a ligar, de forma a que conseguisse ter, pela primeira vez, a minha filha nos braços. Conseguimos, demorou mas a Maria chegou! Não me lembro de nada do que se passou nesses primeiros minutos em que a tive nos meus braços, mesmo nada, sei que foram momentos que vivemos as duas e apenas as duas uma para a outra…em que só o sentir do bater do seu coração me disse muito!!! Minutos depois e já com as máquinas todas a apitar a Maria teve que voltar para o seu novo ninho a incubadora. Agora já não era dentro de mim o seu lugar, essa jornada tinha chegado ao fim. Não cortei o cordão umbilical, como quase todas as mães o fazem na hora do parto, mas sei que foi nesse momento que percebi que o meu papel de a gerar já não existia e que tinha que evoluir…mesmo correndo o risco de ser apenas por umas horas, eu queria estar ali e criar aquele “laço perigoso”.

Crónica pel’ A Mãe da Maria

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19 Comentários

  • Responder Vânia Carvalho Junho 18, 2015 em 12:46

    Simplesmente lindo <3
    Estou apaixonada pelo seu blog!
    Obrigada pela partilha tão bonita.

    • Responder Ana Rebelo Junho 23, 2015 em 15:30

      Olá Vânia,
      Obrigada! Que felicidade nos dá por partilhar a sua opinião. Um grande beijinho e até já.

  • Responder Sandra Leite Junho 18, 2015 em 17:10

    Textos lindos que tocam cá dentro bem forte. Palavras sentidas e ao mesmo tempo palavras que mostram coragem. Obrigada por partilhar estas histórias.

    • Responder Ana Rebelo Junho 23, 2015 em 15:29

      Olá Sandra,
      Fico muito feliz por ter gostado do texto. É uma história real, vivida e sentida e com um final feliz :). Obrigada nós por ler e partilhar a sua opinião. Um beijinho especial e até já.

  • Responder Helena Leitão Junho 23, 2015 em 11:35

    A Maria é uma GUERREIRA

  • Responder Helena Leitão Junho 23, 2015 em 11:38

    A Maria é uma GUERREIRA, estou apaixonada pela força de vicer que ela tem, os nosso problemas parecem tao pequenininhos ao lado do que ela ja viveu durante a sua vida toda.
    Um beijinho para todos voces e continuem a lutar…

    • Responder Ana Rebelo Junho 23, 2015 em 11:41

      Olá Helena,
      A Maria é uma força da natureza, sim. Muito obrigada pelo seu comentário e um grande beijinho para si

  • Responder Carla Castro Julho 5, 2015 em 18:50

    Ola mãe da Maria eu sei o que é essa dor mas eu não tive tanta sorte aos seis meses perdi o meu tive que interromper a minha gravidez um parto difícil o pior da minha vida tive que tomar a pior decisão da minha vida. Passado meio ano abortei outra vez de dois meses. Mas graças a deus passado 6 anos tive a Maria um milagre sem complicações uma gravidez Santa. Adoro o seu blogue beijinhos e força

    • Responder Ana Rebelo Julho 5, 2015 em 20:47

      Olá Carla, obrigada pela sua partilha e pelo seu comentário. Ficamos muito felizes por a ter aí desse lado a acompanhar-nos. Um grande beijinho para si e para a Maria

  • Responder Monica Rebelo Julho 6, 2015 em 00:11

    Ana
    Que dia!
    Lembro-me tão bem…
    Quando, após todas aquelas horas disseram que ias para o bloco e depois disseram que não podia entrar. Mas, como, eu sou médica! Disse eu.
    Quando te levaram e fiquei, à porta, só me lembro de não conseguir parar de chorar. E tão bem que me fez aliviar aquele stress que nos acompanhava há meses e eu sempre tão forte (por fora).
    Quando apareceste já tinha visto a nossa Maria, a verdadeira Guerreira.
    Minima mas muito activa!

    • Responder Ana Rebelo Julho 6, 2015 em 23:37

      Pois é Mónica, há dias que marcam realmente o rumo das nossas vidas e este foi sem dúvida um deles. Não há palavras para agradecer…mas tu sabes. Beijinhos

  • Responder Sonia Rochette Julho 6, 2015 em 15:52

    Nem consigo imaginar o sofrimento que deve ter passado, mas Graças a Deus a Maria é uma força da Natureza.
    Também sou Mãe de uma Maria, que nasceu “perfeita” mas a partir dos 9 meses começou-se a perceber que estava a regredir em algumas capacidades cognitivas e muitas delas nem sequer chegou a adquiri-las. Depois de muitos médicos, e exames, com 2 anos e meio, foi-lhe diagnosticado Sindrome de Rett, uma doença rara. Neste momento a Maria tem 4 anos e é uma linda princesa.
    Obrigada pelas suas partilhas.
    Beijinho,
    Sónia Rochette, mais conhecida pela Mãe da Maria 🙂

    • Responder Ana Rebelo Julho 23, 2015 em 12:46

      Olá Sónia, Obrigada eu pela sua partilha. Mais uma Maria princesa guerreira “a sua”. Que bom. Vá-nos vontade um bocadinho dessa história feliz e cheia de esperança. Até Já. Bjs para si e um muito especial para a Maria

  • Responder Maria almeida Julho 6, 2015 em 19:15

    Olá maria todas as mulheres são guerreiras também passei por isso da primeira vez estava de 12 semanas mas na 2 vez estava de gêmeos e vivi toda a dor do parto e perdi os bebês foi uma dor que ainda hoje me recordou mas felizmente hoje consegui e tenho uma filha que é uma bênção e um milagre de vida e acredito que só guerreiras conseguem sobreviver a tudo isso obrigada pela primeira vez escrevo sobre isso

    • Responder Ana Rebelo Julho 23, 2015 em 12:47

      Olá Maria. Obrigada pela sua partilha que espero, que por ser a primeira vez que escreveu sobre ela, lhe tenha feito bem :). Parabéns pela sua princesa e a si por não ter deixado de sonhar. Um grande beijinho e até já

  • Responder Guida Setembro 15, 2015 em 23:38

    Ana, os meus parabéns por todo o seu empenho na questão da inclusão e sobretudo pela luta, crença e apoio à Maria!

    De facto, com tudo o que a Maria e a família têm superado e vivido ao longo de anos, são exemplares na força, na união e no verdadeiro sentido de vida e de família.

    Guida

  • Responder Isabel Fins do Lago Outubro 29, 2015 em 16:32

    Olá Maria,
    Também foi no seu blogue que escrevi publicamente pela 1ª vez sobre o meu filho Rodrigo. Foi num comentário ao texto que fala sobre as Mães de meninos especiais serem escolhidas por Deus. Não vou hoje alongar-me, também tive um dia 2 de Setembro de 2004 muito complicado e um
    marco na minha vida. Também o Rodrigo foi para a incubadora com 790g, entre a vida e a morte e eu fiquei no 7º andar (ele no R/C), com as mães e seus bebés. Por ironia a minha vizinha da cama ao lado tinha dado à luz nesse mesmo dia o bebé maior do hospital pesava cerca de 4500kg e eu o mais pequenino. Ainda bem que eu a conhecia (era prima de uma amiga) e pude incomodar com o barulho da máquina de extrair leite sem me sentir constrangida. Ainda recordo a simpatia dizendo que a filha adormecia ao som repetitivo da sucção.
    Que o desconhecido continua a imperar nas nossas vidas é um facto que vai tendo que me incomodar cada dia menos. Não sabem quase nada do que se poderia passar que competências iria desenvolver e todas as terapias foram dadas ao Rodrigo desde o 1º ano de vida. Aprendi a viver um dia de cada vez, sem sofrer por antecipação.
    Obrigada pela partilha!

  • Responder Susana Fevereiro 10, 2016 em 10:10

    Que lindo… Chorei tanto! Que bebé e MÃE corajosas…

  • Responder ana fontes Março 29, 2016 em 22:43

    Tenho acompanhado ,ao longo de +de30 anos ,Marias e Maneis .Uns ,mais novinhos ,outros mais crescidos ,mulheres/meninas , meninos/homens… Pequenos passos ,imensas surpresas ,muito desespero ,fazer festa todos os dias ,bater o pé à vida e ir agarrando todas as migalhas de esperança ,alegria ,aprendizagem , parceria, exigindo de mim o que não tinha para o poder exigir dos outros e ,acima de tudo ,amar !Perdas… algumas !Sempre com memórias boas para equilibrar …. Esta sou eu ,que sou “palhaça” de serviço ,perita em piscadelas de olho e língua de fora ,também .Capaz de qualquer coisa para que dêem mais um passo no caminho chamado Vida Feliz . Valorizo todos os que fazem o impossível para que tudo seja …possível !…..

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