Contra a inclusão “com a melhor das intenções”

Julho 6, 2015

Isto é o que, quase sempre de forma inconsciente, fazemos contra a inclusão “com a melhor das intenções”.

Na semana passada tive uma reunião na escola da minha filha mais velha. Enquanto esperava pela hora marcada, fui dando uma vista de olhos pelos trabalhos expostos na entrada: barros pintados, um sistema solar em esferovite e muitos outros em materiais diversos, bairros inteiros em papel maché, desenhos e colagens, todos identificados com os nomes dos respectivos autores.

E fui olhando, curiosa, talvez na esperança de descobrir entre os presentes um trabalho feito por algum dos meus filhos… João Bento, 1º A, Ana Petiz, 8.º C, José Luís, 3.º B, Carolina Varela, 6.ºA, Inês Moniz, Ensino Especial. Parei. Inês Moniz (os nomes são completamente inventados), Ensino Especial? Mas não existe na escola uma turma de Ensino Especial.

Os meus filhos frequentam uma escola pública, de ensino regular. Todas as crianças que estão no chamado Ensino Especial, ou seja, que têm, ao abrigo da lei, pelos mais diversos motivos, que vão de deficiências profundas a ligeiras, sejam motoras ou cognitivas, direito a umas horas de Ensino Específico, isso sim – porque Especial devia ser todo o Ensino -, estão inseridas numa turma A, B, C ou o que for, do 1.º, 2.º até ao 9.º ano.

Ora, se é assim, por que raio de carga de água (desculpem o meu francês), um aluno qualquer tem o seu trabalho exposto assinado com, por exemplo, “José Luís, 3.º B”, e, neste caso, uma aluna, por frequentar as aulas de Ensino Especial, em vez de assinar “Inês Moniz, 3.º B”, assina “Inês Moniz, Ensino Especial”? O que pergunto é se, ao agir desta forma, a escola está a incluir ou a excluir. Porque são muito, muito pequeninas as coisas que podem marcar a diferença.

Por Isabel Tavares

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6 Comentários

  • Responder Sofia Julho 6, 2015 em 13:26

    Eu tenho um filho especial e nos 1ºs locais onde senti discriminação a sério… foi numa escola… em que nenhuma educadora quis ficar com o nosso Mateus… na altura até fiz um post… com os meus desabafos e tem corrido mundo <3 https://www.facebook.com/ArcoIrisDaSofia/photos/a.232729670200183.1073741825.172560206217130/336063039866845/?type=3&theater Beijinhos

    • Responder Ana Rebelo Julho 23, 2015 em 12:52

      Olá Sofia. Pois normalmente na escola sofre-se um do primeiros embates…mas penso que é por desconhecimento de causa da população. Por isso estamos todos aqui, a dar a conhecer esta realidade que de complicada não tem nada, só na cabeça daqueles que ainda não tiveram a oportunidade de aprender. Parabéns pelo seu post, acredito que tenha mudado muita gente. Um grande beijinho e até.

  • Responder Maria Julho 24, 2015 em 00:04

    Eu sou professora do grupo 910, ou seja, para trabalhar nesse tal “ensino especial”. Fiquei chocada com o que presenciou e aqui relatou. Identificar uma criança dessa forma não é a prática habitual dos professores desta área, mas, sim, como em todas as áreas há os bons e os maus, os com vocação e os que querem só ficar perto de casa… Partilho a ideia de que todo o ensino devia ser especial, mas não é, e cada vez é menos. A escola não dá resposta… nem a “especiais” nem a “não especiais”. A minha vida profissional tem sido nesta área, para as minhas filhas os meus alunos são alunos da escola…e eu fico feliz com isso.

    • Responder Ana Rebelo Julho 26, 2015 em 23:49

      Olá Maria, obrigada pelo seu comentário. Sem dúvida que todo o ensino deveria ser especial, pois todas as crianças são especiais. Um beijinho

  • Responder Teresa Dinis Julho 27, 2015 em 12:10

    Olá! Eu sou mãe de 4 meninas. A mais velha, portadora de paralisia cerebral, agora com 19 anos, travou diversas lutas. Foi duro…luta-se por ter direito a não ser olhado de forma diferente, luta-se contra barreiras mentais e fisicas, luta-se diariamente por respeito à diferença….luta-se pela inclusão….mas um dos episódios marcantes, passou-se efectivamente na escola. Estava no 4°ano, tinha tido acompanhamento de uma prof de apoio, (pois na altura, encaminhavam prof não colocados na rede de ensino a dar apoio a crianças que dele necessitassem), mas tinha decorrido o ano normalmente e, no día de entrega das avaliações, a prof responsável pela turma, entregou-me as notas, (a mim e à minha filha, q tinha insistido em ir comigo para se despedir da prof, visto ir mudar de escola, pois ía para a “escola dos grandes”, como ela explicava à irmã mais nova), quando a prof, no final me diz:”vá-se mentalizando, quando muito fará o 9°ano”. – petrifiquei, fiquei sem palavras. A sábia sra, transmissora de conhecimentos, graças a Deus, equivocou-se. A Margarida completou o 12.° ano, agora vai fazer o equivalente no país que, entretanto, elegimos para viver, terminando a equivalência, quer fazer as provas de acesso à faculdade.
    Por vezes os entraves surgem de onde menos esperamos. Há muito trabalho a ser feito, mentalidades a mudar…. Muita força e coragem neste projecto!

    • Responder Ana Rebelo Julho 27, 2015 em 13:36

      Olá Teresa, muito obrigada pelo seu comentário. Realmente a força, na maioria das vezes, ainda tem que estar do lado da família, pois em Portugal existe um desconhecimento muito grande em como lidar com a deficiência. Muitos parabéns à Margarida a si e a toda a família que avançaram sem medos. E que não restem dúvidas – a Margarida vai conseguir tudo aquilo a que se propuser. Obrigada por estar aí – este projeto é de todos para todos! 🙂 Beijinhos e até já

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