Cedo nasceste mulher, em corpo de menina, não sabendo o que é viver sem lutar para sobreviver

Março 5, 2019

Respira…
Cedo nasceste mulher, em corpo de menina, não sabendo o que é viver sem lutar para sobreviver a cada dia. Chorando por dentro, para não desmolarizar os que se agarram a ti, na esperança que a tua magia mude o norte e transforme o sul num lugar bonito.        

Respira… 
Eu sei, tu querias um abraço que te consolase, para não te sentires à deriva em mar desconhecido… Mas eles puseram-te ao comando e deixaram-se levar pela tua corrente, sem avisos nem rumo.

Suspende a respiração por alguns segundos… 
As lágrimas transformaram-se em ondas gigantes, difíceis de ultrapassar, mas é o teu sorriso e essa gigantesca diferença que se tornou na tua maior fortaleza.

Volta a respirar como se fosse a primeira vez … 
Enquanto uns acreditam em preces e bençãos, tu constróis a tua vida peça-por-peça, fazendo os outros acreditar cada vez mais em milagres.

Suspira … 
Eles vão duvidar do teu esforço, vão ver-te cair e virarão as costas, dizendo que tu só tens de dar graças a Deus, por ele te ter dado esta missão. Vão dizer que viveram o que tu viveste, esquecendo-se que é a tua garra de mulher, o seu porto seguro em dias de tempestade.

Respira fundo… 
Deixa-os falar! Dias melhores chegarão. A memória é curta…muitas vezes. Mas eu não esqueço que a cada trovoada, chamo pelo teu nome, e tu com as mãos a tremer, deixas o medo e enfrentas aquilo que toda a gente diz que não serias capaz. Tornas as tempestades na mais bela chuva de estrelas. Será apenas um milagre? Aos olhos de alguns o teu esforço e amor são transparentes como água, mas nos meus, eles têm a cor e o sabor da doce vitória que semeias a cada dia.

Respira sem perderes o fôlego… 
A história continua. Ainda não avistaste a ilha, mas navegas por águas calmas e límpidas esperando serenamente, um dia, poderes ser a menina escondida, por entre as cicatrizes de quem cedo nasceu mulher.

A irmã da Maria (Matilde Rebelo Pires)

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3 Comentários

  • Responder Alexandra Bento Março 6, 2019 em 09:38

    Adorei. A Matilde escreve muito bem. Escreve com a alma de quem só saberia escrever se vivenciasse a Maria. Tantas e tantos que nos rodeiam, alguns deles somos nós, com problemas de diversas cores… Muito bom a partilha dessas vossas/nossas experiências. Beijinhos ♥️

  • Responder Isabel ferreira Março 6, 2019 em 11:31

    Fabuloso 😍de uma sensibilidade arrasadora 🙏
    Uma compreensão profunda de que tem um amor e admiração infinita pela sua mãe … que para ela e pelos vistos para todos o seu porto de abrigo com a consciência da sua fragilidade e força 👌
    Muitos Parabéns ❤️

  • Responder Esmeralda Amorim Março 6, 2019 em 17:44

    Simplesmente Belo puro

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