A vinda da Maria mostrou-me que tenho duas hipóteses

Outubro 7, 2017
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“Há uns tempos, ouvi alguém dizer que era impossível uma família com um filho deficiente ser feliz numa sociedade como a nossa. Eu não acredito nisso e não o digo por querer convencer-me de que é. Estou realmente segura disto. Creio que as pessoas que lêem as histórias que vamos contando no blogue facilmente testemunharão que realmente vejo a vida desta forma. Vou até mais longe, atrevendo-me a afirmar que a Maria é uma criança deficiente profunda mas que, pelo que escrevemos sobre a sua maneira de estar e ser, a maior parte das pessoas não a vê ou sente dessa forma.

Ao ler uma mensagem, onde uma mãe me pedia que lhe dissesse o nome da deficiência da minha filha isto tornou-se ainda mais evidente. Dizia-me a senhora que percebera que a Maria já dizia algumas palavras e que isso a deixara bastante intrigada. A dúvida que levantara fez-me constatar que, por mais tempo que passe e por mais progressos que façamos, continuaremos sempre a precisar de dar nomes a tudo, de saber concretamente o que são os desafios com que lidamos.

A Maria tem 97% de incapacidade e um atraso mental e motor muito profundo mas porquê defini-la dessa forma? Para nós, ela é dependente e é a isso que todos os dias nos temos de ajustar. Comentei esta troca de mensagens com uma amiga que me deu uma nova perspetiva sobre tudo isto. Disse-me que talvez o fato de as pessoas assistirem ao dia a dia da nossa família através dos nossos olhos, sempre tão carregados de esperança, ajudasse a desconstruir a deficiência da Maria ao ponto de a transformar numa coisa trivial.

Admito que ao escolhermos olhar para a nossa vida sempre de uma forma positiva os nosso textos possam ter esse efeito regenerador sobre as pessoas, mas para mim é demasiado claro que esta confiança se alimenta da sensação que tenho muitas vezes de que há outras famílias que têm problemas bastante mais complicados do que os meus. Não forçosamente porque haja no seio delas alguém eternamente dependente, mas grande parte das vezes por ver a dificuldade que têm em lidar com coisas pequenas, com uma resolução que aos meus olhos parece demasiado simples mas que as deixa incapazes de agir. Quando olho à minha volta percebo que é fácil deixarmo-nos consumir por contratempos e como isso nos leva a sobredimensionar desafios que surgem nas nossas vidas.

A vinda da Maria mostrou-me que tenho duas hipóteses: agradecer tudo o que a vida me vai dando e, por isso reagir, ou optar por queixar-me constantemente, numa atitude profundamente paralisante. Escolhi ser agradecida. Tenho a certeza de que se fosse uma mãe zangada, os meus filhos também o seriam, porque a minha forma de estar reflete-se neles e, por consequência, eles respondem ao mundo da mesma maneira que eu.”

Excerto do livro “A mãe da Maria” | Autora Ana Rebelo

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4 Comentários

  • Responder Laura Outubro 8, 2017 em 19:47

    Olá Ana , Mae da Maria !
    Já nos falámos, sou A mãe do Diogo. Também eu escolhi ser grata , grata por o meu filho ter “vindo parar” a mim , que o cuidaria sempre e não a alguém não o conseguisse cuidar ou amar, porque os há.

    • Responder Ana Rebelo Outubro 8, 2017 em 22:42

      Olá Laura, que bom! Beijinhos para si e para o Diogo

  • Responder Laura Outubro 8, 2017 em 19:50

    Tão energética , alegre , positiva me mostrei sempre que, há uns tempos, alguém muito próxima me disse: ” teres o Diogo não te afectou nada, seguiste a tua vida na mesma” …
    O meu coração quase parou. Levamos tareia por ” ter cão e por não ter ” . Haja paciência !!!

    • Responder Ana Rebelo Outubro 8, 2017 em 22:43

      Ahahah! Pois também acontece…mas o que interessa é o que nós pensamos. Beijinhos Laura

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