A minha subida à montanha – por Maria Bravo Martins

Abril 16, 2016

Quando cruzei a porta do auditório da Fundação Oriente pela segunda vez naquela segunda-feira, para continuar a assistir à entrega de prémios «Corações Capazes de Construir» (da Associação Corações com Coroa), a primeira coisa que ouvi foi: «Mesmo diferentes, somos todos iguais! As crianças sabem bem isso. Nós é que ainda não aprendemos. Inclusão: mais do que aceitar, aprender.»

Parei no cimo das escadas e fiquei a admirar, completamente derretida, um vídeo que estava a ser projetado numa tela gigante localizada por cima do palco. Lembro-me perfeitamente do que acontecia no filme nesse exato segundo porque, naquele momento, senti que as penas com que as crianças brincavam, caíam também sobre a minha cabeça. Essa foi a primeira vez que ouvi falar na Mãe da Maria e no seu blogue, que não resisti a pesquisar logo aí com a ajuda da internet do telemóvel.

Mais tarde, quis um novo acaso feliz que a minha vida se cruzasse com a da Ana, a mãe por detrás d’amãedamaria.com, um espaço que me impressiona e me inquieta ao mesmo tempo. Impressiona-me pela forma como nos desafia a olharmos para a diferença a partir de uma nova perspetiva, tão real e tão evidente, que desarma qualquer preconceito (parvo) que ainda possamos ter. E inquieta-me profundamente porque a esperança com que a Ana e os seus dois outros filhos, o Tomás e a Matilde, contam o dia a dia da sua família, me faz perceber o caminho que ainda preciso de percorrer para também eu me tornar uma pessoa verdadeiramente inclusiva. Não daquelas que abraça a diferença em palavras mas que a concretiza em exemplos, em gestos concretos.

Há uns tempos, cruzei-me online com um vídeo de sensibilização sobre as doenças raras, realizado por uma Fundação espanhola — a Fundação Mehuer —, a partir de um texto original de Emily Pearl Kingsley, que termina com uma verdade indiscutível a propósito do efeito que uma mudança repentina pode ter sobre nós: «Porque se passas a vida a queixar-te que nunca chegaste a ir à praia, pode ser que nunca tenhas a liberdade para poderes desfrutar do especial que há na montanha.»

A diferença é de facto especial e traduz-se em experiências verdadeiramente enriquecedoras. A família da Maria é a prova disto e demonstra-o, dia após dia, com os textos que vai escrevendo. A mim pôs-me a caminho para chegar ao cimo desta montanha e só por isso ficar-lhes-ei eternamente agradecida.

A Amiga da Maria (Maria Bravo Martins)

Para quem ficou com curiosidade de ver o vídeo, aqui fica:

(tradução: 

«Quando estás à espera de um bebé é como planear umas férias. Aquela viagem com que sempre sonhaste, por fim vais fazê-la. Então começas a comprar guias dos melhores destinos do mundo e a fazer planos maravilhosos: passear pela beira-mar ou fazer uma grande sesta. É tudo tão emocionante. Finalmente chega o grande dia: preparas as tuas malas e lá vais tu. Várias horas depois a estrada aparece cortada e uma série de indicações fazem-te entrar num bosque.

— Bem-vindos à montanha!

— À montanha? Mas se eu ia ao mar…

E embora te leve algum tempo até o admitires, começas a pensar que não chegaste a um lugar assim tão horrível. É diferente, simplesmente. Porque se passas a vida a queixar-te que nunca chegaste a ir à praia, pode ser que nunca tenhas a liberdade para poderes desfrutar do especial que há na montanha.»)

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1 Comentário

  • Responder ana fontes Abril 16, 2016 em 12:30

    Há que subir montanhas ,para em conjunto, apreciar a vista ….. e descobrir que ,afinal ,temos a praia também !

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