A menina especial

Junho 16, 2015

Podíamos passar meses por ela e não darmos conta. Sentada na mesa junto da professora, calma e serena, a Maria parece, à primeira vista, viver num mundo que é só dela, impenetrável, silenciosa, discreta.

Qualquer um de nós, na pressa de deixar os “nossos”, a pensar nas mil coisas que temos para fazer no dia-a-dia, passaria por ela sem reparar no seu olhar meigo, na atenção extrema que dedica aos detalhes, no sorriso lindo que nos dá de presente quando, finalmente, paramos e somos aquilo que devíamos ser sempre, humanos e preocupados com os outros e com aquilo que nos rodeia. Foi o que me aconteceu durante algum tempo. Demasiado.

Confesso que só reparei na Maria quando a vi entrar na escola por uma porta especial. Faz sentido, porque ela para todos os meninos da sala é a Maria Pires, a menina especial. Com aquela forma especial, e corajosa acrescento eu, de se mover todos os dias para a escola em busca dos afectos da professora e dos colegas.

Nas primeiras vezes, não sabia como lidar com ela. Falo? Não falo? Ela entende-me? Percebe o que lhe quero dizer? Deixa que me aproxime? Devo beijá-la e abraçá-la? Ou simplesmente respeitar o seu espaço e a forma de estar especial, de uma criança especial? Os pais compreendêm que me aproxime da Maria ou ficam magoados comigo?

Acontece que sou o pai do Lourenço, colega da Maria. Um dia, sem lhe pedir, do nada, começou a  falar da Maria Pires, a menina especial da sala. Que todos gostavam dela e brincavam com ela, que todos a tentavam ajudar em tudo, que ela gostava de todos e que se ria à gargalhada mas também se irritava. Que tentava fazer tudo como todos e que nem sempre conseguia, mas que no outro dia tentava outra vez. Que também se portava mal e levava ralhetes da professora. Que adorava a turma e todas a adoravam. E que era tratada da mesma forma.

Dei comigo a pensar no absurdo das minhas dúvidas. A Maria é uma criança igual às outras, com as suas especificidades, a forma própria de ser e as suas limitações, mas uma criança como todas, que passa os dias a querer o que todos queremos, mimo, atenção e novas experiências. Que gosta de ser acarinhada e desafiada, que gosta de um abraço mas também tem dias maus e cinzentos, que nuns dias se ri à gargalhada e noutros faz birra e afasta tudo e todos. Como todas as crianças.

Passei a fazer com a Maria o que faço com todos, sem diferença.

Descobri duas coisas, que o preconceito, ainda que por razões saudáveis, é uma linha fina à espera de ser cortada e que a Maria tem um abraço maravilhoso e inesquecível. Forte. Como todos os outros.

O pai do Lourenço (António Esteves)

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24 Comentários

  • Responder Maria Cecília Bruno Junho 17, 2015 em 20:25

    Conheci a Maria hoje de manhã na RTP e fiquei tocada por ela e pela Mãe. Obrigada a todos pela iniciativa e contem comigo para divulgar e para o que for preciso. Lindo o texto do António. Beijos para a Maria e para todos.

    • Responder Ana Rebelo Junho 22, 2015 em 21:38

      Olá Maria Cecília, muito obrigada pelo seu comentário. Não existe nada melhor que saber que a iniciativa faz sentido. 🙂 O texto do António Esteves é fantástico, tal como ele o é, e conta uma história real vivida durante este ano letivo no Colégio. Contamos consigo por aqui, comente, partilhe ideias sempre que possa. Um grande beijinho

  • Responder Miguel Laundes Junho 17, 2015 em 20:30

    Tocou-me o testemunho de hoje dia 17-06-2015 no programa da manhã! Deu para perceber e vai dar para mudar…os sentimentos são para serem sentidos e expressados …fui isso que eu senti! Bem hajas Maria e mãe da Maria! O meu abraço , igualmente apertado…

    • Responder Ana Rebelo Junho 29, 2015 em 23:45

      Olá Miguel, obrigada pelas suas palavras. Como diz os sentimentos são para ser sentidos e devem sempre se expressar. Vamos mantendo contacto. Um beijinho e até já!

  • Responder Flavia Souza Junho 17, 2015 em 21:45

    Parabéns Ana pela iniciativa, es uma mae guerreira, batalhadora e o mais importante Amorosa. Es um exemplo .

    • Responder Ana Rebelo Junho 25, 2015 em 14:11

      Olá Flavia, tão bem ler as tuas palavras…mas sou uma mãe comum. Obrigada pelo teu comentário e vamos falando. Até já. Beijinho

  • Responder Bella Meinhardt Junho 17, 2015 em 22:09

    Historian inspiradora… Parabens!

    • Responder Maria Cristina da Silva Vieira Junho 18, 2015 em 01:21

      Não vi o programa, mas trabalho todos os dias com jovens, como a Maria, com necessidades educativas especiais. Nunca trato estas crianças como “especiais” e elas sabem disso e precisam de sentir essa igualdade de tratamento perante os demais.Todavia, trato-as invisivelmente com um carinho especial, não se explica, e eles sentem essa atenção, sem uma palavra diferente.Curiosamente, no início das aulas ou no final é o momento em que estas crianças e jovens se aproximam, só é necessário dar aquela atenção invisível, um sorriso, um olhar, uma brincadeira, porque eles sentem muito mais.

    • Responder Ana Rebelo Junho 25, 2015 em 14:11

      Obrigada Bella. A Maria é realmente inspiradora. Beijinho

  • Responder Maria Cristina da Silva Vieira Junho 18, 2015 em 02:16

    Não vi o programa, mas trabalho todos os dias com jovens, como a Maria, com “Necessidades Educativas Especiais”. Nunca trato estas crianças como “especiais” e elas sabem disso e precisam de sentir essa igualdade de tratamento perante os demais.Todavia, há sempre uma ligação “invisível”, um carinho especial naquele espaço e naquela hora onde as palavras ditas ou gritadas vão saindo sem preparo. Não se explica! E elas sentem essa atenção, sem uma palavra diferente. Curiosamente, no início das aulas ou no final destas é o momento em que estas crianças e jovens se aproximam do professor e é tão simples: basta um sorriso, um olhar, uma brincadeira, para o seu olhar brilhar, porque o seu mundo de afectos é maior e eles sabem sempre quem gosta delas de verdade. As mães e os pais são os pilares, o elo mais forte e a constância mais necessária na dura “batalha” de vida destes jovens, que os coloca entre a afronta da divergência do mundo exterior que as rodeia e a presença do mundo interior diferente que as semeia. A “inclusão” é natural “transforma-se o amador na coisa amada”. A “inserção” é social.

  • Responder carla sequeira Junho 18, 2015 em 18:28

    Maria és linda. Fiquei colada à tv e vi uma linda menina e uma mãe fantastica. Conheci hoje o sorriso mais lindo do mundo. Maria tu és uma menina que qualquer mãe gostava de ter. Sou mae apaixonada pela minha filha mas apaixonei me por ti também. Gostava de conhecer o teu abraço deve ser delicioso meigo e lindo como tu. Continua a ser feliz. Obrigado por existires. Mae da Maria linda com coração glorioso. Beijinho para toda a familia.

    • Responder Ana Rebelo Junho 29, 2015 em 23:46

      Olá Carla, que querida, obrigada pelo seu comentário. Haverá oportunidade de nos conhecermos…se algum dia se cruzar connosco por favor chame-nos. Um grande beijinho e até já!

  • Responder Margarida Rosa Oliveira Dias Junho 18, 2015 em 18:40

    Boa tarde, trabalho com crianças, gostei de conhecer a Maria através do programa da Fátima, é uma história de Amor linda, uma coisa que a Ana frisou acontece muito, que é o não saber a reacção dos pais se nos aproxima-mos da criança, eu adoro crianças e até meto conversa com uma que por exemplo esteja a fazer uma birra, geralmente não me saio mal, mas de facto há sempre o receio que os pais não gostem, muitas felicidades.

    • Responder Ana Rebelo Junho 29, 2015 em 23:49

      Olá Margarida, esta gestão é sempre difícil, mas sei que a grande maioria dos pais de crianças portadoras de deficiência não ficará minimamente incomodado se abordar os filhos. 🙂 Se algum dia nos vir…por favor não deixe de nos abordar. Um grande beijinhos e até já!

  • Responder Sara Madalena Pires Junho 18, 2015 em 19:46

    D. Ana Rebelo, eu sou a Sara, tenho 36 anos , não sou mãe pelo fato de não poder ter filhos derivado ao meu problema renal crónico , mas sou Voluntaria a tempo inteiro com ceianças como a Maria <3 e amo o que faço.vi a senhora hoje na tv ee só tenho a dizer que a admiro muito como mãe e como mulher , limito-me a dedicar-lhe estes poemas pela admiração que tenho por si .MÃE QUE SOFRE, CANTA E CHORA QUE CARREGA SEUS FARDOS QUE AMA E PERDOA E EMBALA SEUS FILHO NO COLO MÃE, A FIGURA MAIS HUMANA QUE PROTEGE OS SEUS DO PERIGO PARA NÃO VE-LOS SOFRER E DERRAMA SUAS LÁGRIMAS NA DOR , QUE ENSINA E EDUCA QUE MOSTRA O CAMINHO DO BEM QUE TEM.MÃE É VIDA, É ALEGRIA, MÃE É POESIA É MULHER TÃO DIVINA, AS MÃES SÃO FLORES MARAVILHOSAS, SÃO LÍRIOS LINDOS E BELAS ROSAS, SÃO DÁLIAS, CRAVOS, AÇUCENAS, JASMINS, VIOLETAS AMENAS. FLORES BELAS, SIMPLES OU PERFUMADAS, AS MÃES TAL COMO A D. Ana MERECEM NOSSO CARINHO, A NOSSA ADMIRAÇÃO, O NOSSO AMOR MAIS SINCERO, A NOSSA DEDICAÇÃO. POR TUDO O QUE ELAS SOFREM, E PELO AMOR QUE ELAS TÊM.MÃE É A PALAVRA MAIS COMPLETA QUE ALGUEM JÁ ESCREVEU E O AMOR DE UMA MAE SO PODE SER TRADUZIDO EM UMA PALAVRA DOAÇÃO! O AMOR DE MÃE É UM AMOR QUE SE DOA E COLOCA EM PRIMEIRO PLANO O BEM ESTAR DE SEUS FILHOS E ESSA DOAÇÃO QUE ESQUECE MUITAS VEZES DE SI E PENSA NOS SEUS . D. Ana , QUE DEUS A ABENÇOE , É UMA GRANDE MULHER . BJINHOS PARA SI E MARIA ! PS. Teria muito gosto de um dia ter a oportunidade de a conheçer pessoalmente D. Ana e a sua Maria . Bem haja pela sua atenção. Grata. Ass: Sara Madalena Pires

    • Responder Ana Rebelo Junho 25, 2015 em 14:09

      Olá Sara, muitos parabéns pelo seu trabalho e pela dedicação e amor que demonstra ter. Obrigada pelo poema que adorei e por estar por aqui a acompanhar-nos. Um grande beijinho e até já.

  • Responder Graça Faria Junho 20, 2015 em 16:14

    A inclusão é encontrar a forma de cada pessoa desenvolver a suas capacidades nas condições que consideramos fundamentais para todas as pessoas. A primeira vista uma adolescente não deveria frequentar uma sala de pré mas conhecendo a sua história compreende-se porque é a opção. Cada pessoa tem capacidades e necessidades diferentes de outra pessoas e as primeiras devem ser desenvolvida e as segundas satisfeitas de forma harmoniosa. Uma história sobre pessoas http://en.calameo.com/read/001069805b895f1b72664

    • Responder Ana Rebelo Junho 23, 2015 em 11:03

      Olá Graça Faria,
      Sem dúvida, cada um tem capacidades e necessidades diferentes! Muito obrigada pelo seu comentário. Beijinho

  • Responder Wilma Monteiro Junho 21, 2015 em 00:50

    Olá “mãe da Maria” Eu sou a irmã do Betinho um rapaz agora com 19 anos que perdeu a mãe quando nasceu que durante meses lutamos para que Ele sobrevivesse Em Angola ainda no rescaldo da guerra sem luz no hospital sem condições onde todos os dias morriam crianças e todos os dias olhava para o meu primo/mano /filho e só pedia a Deus que Ele passasse só mais aquele dia a respirar amanhã seria uma Nova luta e fomos passando os dias sem diagnosticos sem melhoras e assim foi quase 3 meses até Ele chorar pela primeira vez. Aos dois anos Em Coimbra foi quando disseram aos meus pais que tinha parelesia cerebral e Com muito amor nosso e força de vontade dele com 7 anos deu os primeiros passos tem dificuldades Em andar mas HOJE amado incondicionalmente pelos pais mana sobrinhos e resto da família é um rapaz lindo cheio de vontade de conseguir fazer ao que se propõe por isso digo mãe da Maria todas às crianças são especiais e são Elas que nos ensinam muitas das vezes a importância de pequenas coisas que fazem uma diferença enorme. Beijinhos especial para a Maria e para a “mãe da Maria “

    • Responder Ana Rebelo Junho 23, 2015 em 11:43

      Olá Wilma,
      Obrigada por ter partilhado esta história tão bonita. O seu irmão Betinho é sem dúvida uma força da natureza, que ensina o verdadeiro sentido da vida. Parabéns! Um grande beijinho e vamos falando. Até já!

  • Responder Ana Teresa Costa Junho 25, 2015 em 23:28

    Olá Ana!
    Eu também sou Ana e sou a mãe da Caetana, uma menina especial de 6 anos, com uma doença rara, ainda sem diagnóstico.
    Ontem numa consulta de cardiologia onde falávamos sobre inclusão a médica do hospital de Sta Marta falou-me no seu blogue que vim agora espreitar…
    Concordo plenamente consigo quando diz que vivemos num país não inclusivo, infelizmente!!
    A Caetana iniciou neste ano letivo que termina o 1o ano, para tal, teve de mudar de cidade, a mãe deixar o trabalho, deixar a família e amigos para trás, pra poder frequentar, supostamente, a escola que se adequava mais às necessidades da Caetana…
    Hoje, finalizado o primeiro ano, a Caetana É OBRIGADA a transitar de ano apesar de nem conseguir escrever o seu nome completo!! (?) E pergunto eu “porquê?? Para quê??” Se não conseguiu atingir os objetivos mínimos pretendidos, que vai ela fazer pra uma turma de 2o ano??? Sentir-se ainda mais excluida?? Sentir-se ainda mais frustrada e desmotivada???
    Por favor, se tem a oportunidade de falar com alguém do governo, passe a mensagem ao Sr Nuno Crato de que, os pais de crianças com NEE queremos que elas aprendam e não que façam parte de estatísticas para “o inglês ver”!! Se os conteúdos programáticos já são difíceis para crianças saudáveis, para as nossas são muito mais difíceis de atingir, assim sendo, não os obriguem a correr!!! Deixem-nos aprender, devagar, mas a seu tempo e bem!!
    Boa sorte nesta campanha!!
    Se puder ajudar, conte comigo!!

    Deixo aqui o link do meu blogue onde apenas falo sobre a doença da minha Caetana!
    http://m.sindromedacaetana.webnode.pt

    Beijinhos aos 5 e parabéns por serem uma família unida e feliz!!

    Ana Costa

    • Responder Ana Rebelo Junho 29, 2015 em 23:53

      Olá Ana Teresa, obrigada pelo seu comentário. Levanta aqui uma questão muito pertinente…se não adquiriram conhecimentos e podem ainda estar incluídos, porque transitam? É realmente uma questão a colocar…na primeira oportunidade sem dúvida que o farei. Um grande beijinho para si e para a Caetana. Até já!

  • Responder Maria José Martins Mendes Junho 26, 2015 em 12:58

    Não vou agradecer apenas ao pai do Lourenço, quero agradecer a todos….Bem hajam por tão lindas e afáveis palavras!!! É bom vermos que no meio de uma sociedade algo desatenta para os problemas dos outros(pois todos temos problemas, uns de uma forma outros de outra) existem pessoas que têm um coração do tamanho do Mundo…BEM HAJAM!!! Abraços um beijinho muito grande para ti MARIA

    • Responder Ana Rebelo Junho 27, 2015 em 13:00

      Olá Maria José Mendes,
      Obrigada a si pelo seu comentário. Um grande beijinho e até já!

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